O Instituto Nacional do Câncer (Inca) anunciou na primeira quinzena de março que iria atualizar as diretrizes de rastreamento do câncer de colo de útero no Brasil. Passaria a evitar o rastreamento em meninas que recém iniciaram a atividade sexual e ampliaria a faixa etária em que o rastreamento é feito, de 25 a 64 anos, e não mais de 25 a 59 anos, como é atualmente.
O rastreamento é uma forma de prevenção secundária de câncer de colo. É uma política pública pela qual a população que corresponde a critérios específicos é orientada a fazer exames preventivos para determinada enfermidade.
Preservando as mais jovens
De acordo com a analista de programas nacionais de câncer da Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica (DARAO) e ginecologista do Inca, Flavia de Miranda Correa, as mudanças nas diretrizes do Inca atendem a uma tendência mundial. “A incidência de câncer de colo de útero em mulheres com menos de 24 anos é muito baixa. Por outro lado, a população está vivendo mais, é natural expandir a faixa de rastreamento ”, alerta.
Outro argumento que justifica essa alteração é preservar a própria paciente que recém iniciou atividade sexual: “Em mulheres jovens os benefícios do rastreamento são muito pequenos. Podem ser diagnosticadas algumas alterações por HPV, mas em geral não são lesões percussoras de câncer. Porém a paciente, ao ouvir falar no vírus do HPV já o associa com câncer, acreditando que a atividade sexual dela levou ao contágio com o vírus e com uma futura doença maligna”, afirma a ginecologista.
Vírus e câncer
Uma distinção importante que precisa ser feita é entre o vírus do HPV e o câncer de colo de útero, pois muitas mulheres acreditam no mito que quem tem o vírus obrigatoriamente desenvolve a doença. No entanto, como informa a própria ginecologista, ter infecção não quer dizer que vá desenvolver a doença: “Temos 300 milhões de infectados no mundo e 500 mil casos, o que demonstra que ter infecção pelo vírus não quer dizer que vai ter caso de câncer. Há uma série de outros fatores que influenciam, a pessoa deve possuir o subtipo oncogênico do vírus, contribuir para que se desenvolva a doença uma imunidade baixa entre outros fatores próprios”.
Enquanto o câncer do colo de útero é o segundo mais incidente na população feminina brasileira, com um risco estimado de 18 casos para cada 100 mil mulheres de acordo com dados do Inca; a maioria das lesões em mulheres infectadas por HPV regride sozinha. Para Flavia, é praticamente impossível uma paciente que faça o rastreamento vir a desenvolver o câncer de colo de útero, “pois qualquer infecção por HPV será detectada e monitorada”.