O médico precisa ter todo cuidado ao fazer recomendações por escrito. Letras ilegíveis podem dificultar a compreensão das informações e causar prejuízos ao paciente. Essa má conduta é condenada pelo Código de Ética Médica Brasileiro, definido pela Resolução nº 1.601/2000 do Conselho Federal de Medicina (CFM). De acordo com o Artigo 39 do capítulo que rege sobre a responsabilidade profissional, o médico não pode escrever de forma incompreensível.
Diretor do CFM, Clóvis Francisco Constantino é taxativo: o zelo ao prescrever receitas faz parte do ato médico. "O tempo e o custo da assistência são empregados em vão quando a pessoa sai do consultório sem compreender a recomendação por escrito. Se o profissional não tem o cuidado de se fazer entender, de nada adianta o ato médico", comenta.
Marina Mello, 87 anos, passou por contratempos quando precisou fazer um exame. Ao apresentar a guia no laboratório, não houve o entendimento das informações escritas pelo médico. Por isso, Mello teve de retornar ao consultório. "A secretária, que já estava habituada com a letra dele, traduziu o que estava escrito. Os médicos precisam escrever de forma legível e com clareza, mas alguns acabam fazendo garranchos", considera.
Constantino lembra que, quando se sente prejudicado, o doente ou os familiares podem fazer denúncias ao Conselho Regional de Medicina (CRM). "Se o paciente considerar que houve dano por dificuldade de leitura da receita, é possível abrir processo junto ao Conselho do estado, que instaurará sindicância para averiguar a veracidade dos relatos. Quando constatado que houve problema de compreensão por causa de escrita ilegível, seja por parte do paciente ou do farmacêutico, o médico é punido. A conduta dele pode ser interpretada como negligente e imprudente", observa.
A fim de não causar prejuízos aos seus pacientes, a dermatologista Geórgia Saad procura se certificar de que todas as informações foram compreendidas. E a preocupação está dando certo. A médica, que trabalha em duas clínicas no Rio de Janeiro, afirma que nunca teve problemas com suas receitas. "Sempre tento fazer a letra de forma mais legível possível. Peço ao paciente que leia a receita na minha frente e tente explicar o que entendeu. Quando ele não consegue compreender, digo para escrever com a própria letra o que não ficou claro", conta.
Para evitar os garranchos indecifráveis, o diretor do CFM sugere aos médicos que utilizem o computador para redigir e imprimir as recomendações ou escrevam com letra de fôrma. "Qualquer método é válido desde que o paciente saia do consultório com a noção exata do tratamento, nomes dos remédios, exames e posologia. Ao optar pelo manuscrito, tudo deve ser bem estabelecido e explicado. Caso contrário o resultado não será o esperado, e a responsabilidade pode recair sobre o médico", conclui Constantino.