Uma pesquisa polêmica realizada por pesquisadores americanos sugere que um pouco de estresse pode ajudar a combater o câncer. A equipe do professor de neurociência Matthew During, da Ohio State University, realizou um experimento onde camundongos sob forte situações de estresse reagem melhor ao câncer do que o grupo de controle, deixado em paz.
Os pesquisadores, que injetaram melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele, nos animais, observaram que os tumores haviam regredido pela metade nos camundongos estressados após três semanas e 77% após sete semanas. A doença inclusive chegou a desaparecer por completo em 17% dos animais desse grupo, sem tratamento algum. O estudo, publicado na revista especializada Cell, aponta como causa para essa relação entre estresse e câncer uma substância produzida pelo cérebro chamada fator neurotrófico derivado do cérebro, que, entre outros efeitos, reduz a produção de leptina, um hormônio frequentemente associado ao melanoma e ao câncer de próstata. A intenção da pesquisa é propor alternativas ao tratamento neurológico da neoplasia.
De acordo com Karina Costa Maia Vianna, médica oncologista do ambulatório de hematologia e oncologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR), o resultado apontado é contrário aos resultados encontrados anteriormente nos estudos que procuraram relacionar estresse e o risco de câncer. “O organismo responde ao estresse liberando hormônios como a adrenalina e o cortisol, sendo considerado a sua liberação crônica prejudicial, podendo alterar células que protegem contra o câncer”, explica. Ela também comenta que comprovar a relação causa-efeito desse processo sempre foi o desafio, pela dificuldade de desassociar o estresse a fatores físicos e emocionais para o câncer, como o tabagismo, o etilismo, a obesidade e o envelhecimento.
Por isso, Karina esclarece que o estudo não é válido ainda para comprovar qualquer benefício que o estresse tenha, muito pelo contrário. “O estresse aumenta os riscos de obesidade, doenças cardíacas, depressão e outras doenças”, afirma. Ele acrescenta, ainda, que a leptina e o próprio melanoma agem de formas diferentes em camundongos e humanos, portanto, o estudo também encontra esse obstáculo. Aliás, nos humanos, os efeitos do estresse tendem a ser o oposto: “existem estudos que sugeriram uma relação entre o estresse crônico e a fraqueza do sistema imune, podendo assim afetar a incidência de tumores relacionados a vírus, como o sarcoma de kaposi e alguns linfomas”, acrescenta a médica.