Uma pesquisa recentemente lançada nos Estados Unidos pode relacionar duas patologias que até hoje desafiam a medicina: alergia e câncer. Cientistas da Universidade Texas Tech publicaram um estudo epidemiológico que avaliou a prevalência de asma em três grupos de pacientes: com câncer de ovário, com histórico de infarto e com histórico de fratura óssea. No estudo, foi descoberto que os pacientes do primeiro grupo possuíam uma incidência de asma 30% menor. Embora o resultado seja insuficiente para qualquer hipótese, o estudo não é isolado: uma série de pesquisas nos Estados Unidos que vem sendo desenvolvida nos últimos anos tentam estabelecer essa mesma conexão. Exemplo mais eficaz é o projeto conduzido pela Universidade Cornell, na cidade de Ithaca, que apontou que crianças alérgicas a partículas presentes no ar têm 40% menos chances de desenvolver leucemia.
A iniciativa de vincular o câncer à alergia não é, entretanto, sem fundamento. Segundo a presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia do Estado de São Paulo (Asbai-SP), Ana Paula Castro, a maneira como nosso sistema imunológico reage exageradamente a algumas substâncias pode servir como um treinamento dos anticorpos. “As neoplasias são justamente desencadeadas, entre outras coisas, por uma falta de vigilância do sistema imunológico. Então, pode-se fazer tal correlação.” Ela ressalta, porém, que as causas do câncer e da alergia não são completamente conhecidas, e que os estudos apresentados preocupam-se, primeiramente, em fazer a conexão das doenças, deixando as explicações para um outro momento. “Quando falamos de câncer e alergia é fundamental lembrar que há pelo menos uma centena de tumores diferentes e diversos tipos de alergia, ou seja, parecem iguais, mas são muito diferentes”, diz.
Na opinião da médica, a evolução dessa pesquisa será importante para entender definitivamente o funcionamento de nosso sistema imunológico: “saberemos manipular melhor os tratamentos e, certamente, no combate ao câncer, poderemos utilizar medicamentos que estimulem a resposta imunológica de uma maneira diferente do que é feito”, acredita. Os outros estudos provaram estar no caminho certo: a Universidade de Minnesota apontou uma diminuição da probabilidade de alérgicos desenvolverem câncer de estômago e linfomas não-Hodgkin; e a Universidade Havard produziu uma pesquisa que relaciona doenças como asma, eczema, febre do feno e outras alergias a uma diminuição da propensão ao câncer de cérebro.
Os dados sobre alergia no Brasil, de acordo com Ana Paula, são principalmente relacionados a crianças. “Os estudos epidemiológicos revelam que até 30% das crianças entre seis e sete anos podem apresentar rinite alérgica, 15 a 20% podem apresentar asma e até 10% podem apresentar dermatite atópica”, explica.