O uso inadequado de antibióticos, principalmente aqueles chamados de largo espectro – que têm ação sobre um grande número de espécies de bactérias causadoras de doenças –, pode prejudicar tratamentos futuros. Isso geralmente acontece quando o paciente faz o uso de um antibiótico não específico para a sua doença, e este medicamento além de matar a bactéria almejada, acaba eliminando muitas outras que não deveria, ocasionando a chamada resistência bacteriana, como explica a infectologia, Dra. Maria Terezinha Carneiro Leão.
De acordo com ela, na natureza não existe vazio microbiano. Quando alguns elementos são destruídos, outros, provavelmente mais fortes e melhorados geneticamente, ocuparão o espaço deixado. Esta premissa se tornou hoje um grande problema de saúde pública, principalmente em hospitais que utilizam muitos antimicrobianos, com o surgimento de cepas bacterianas extremamente resistentes.
“Voltamos quase à era pré-antibiótica, onde assistíamos o doente morrer, sem poder fazer nada por ele, por não haver medicamentos adequados. Hoje, alguns dos antibióticos recém-lançados se tornam inócuos em bem pouco tempo, pelo uso indiscriminado. A rigor, a bactéria não sabe distinguir se o uso do antibiótico é correto ou incorreto. O uso amplo cria uma pressão de seleção bacteriana induzida pela presença do antibiótico no meio, selecionando aquelas resistentes” alerta a infectologista.
O ideal, segundo a Dra. Maria Terezinha, seria que existisse um antibiótico para cada bactéria. “De modo geral, os antibióticos matam a bactéria desejada, mas também muitas outras que não precisariam, levando assim à indução de resistência”, argumenta.
No Brasil há poucos estudos publicados sobre automedicação, mas sobre o uso de antibióticos em hospitais, em 1994 o Ministério da Saúde fez uma pesquisa nacional e verificou que apenas 10% das infecções hospitalares tratadas tinham o diagnóstico microbiológico, ou seja, a maioria era tratada sem ao menos saber se era uma infecção.
Antibiótico é um dos poucos tratamentos na Medicina que “cura” o paciente; a maioria dos remédios apenas alivia ou controla os sintomas. Os antibióticos são armas reais contra germes danosos, mas nem todos os germes são prejudiciais; a maioria deles faz parte da flora normal das pessoas e funciona como defesa para o organismo. “Quando você usa um antibiótico ele mata a bactéria que causa a infecção, mas também os germes da flora normal, e é aí que começa o problema”, ressalta a infectologista.
Vale lembrar que se o antimicrobiano não estivesse presente no ambiente, a mutação espontânea seria muito rara, ocorrendo em 1 para cada 1.000.000 de casos. Como a bactéria resistente se multiplica mais lentamente que as sensíveis, ela seria rapidamente suplantada por todas as outras colônias sensíveis e em pouco tempo ela simplesmente não existiria. Porém, mantendo o uso do antibiótico por tempo prolongado, é possível que cepas resistentes sobrevivam e, principalmente, se disseminem no ambiente.
“Antibiótico nunca deve ser usado sem receita médica. Nunca usar nem menos, nem mais tempo do que o recomendado. Se tiver que mudar o antibiótico, só um médico capacitado poderá fazê-lo”, alerta Dra. Maria Terezinha.
