A salmonela é uma bactéria conhecida por causar infecções intestinais, em um processo de intoxicação alimentar conhecido por salmonelose, além de provocar febre tifóide. Apesar de seus malefícios, os cientistas estão estudando a possibilidade de usar a bactéria para combater o câncer. Segundo um artigo publicado na revista especializada Science Translational Medicine, cientistas do Instituto Europeu de Oncologia constataram que a bactéria é capaz de induzir uma resposta imunológica no organismo, quando injetadas diretamente nas células cancerosas, principalmente, no caso do melanoma, o tipo mais grave de câncer de pele.
O estudo apontou que as células do câncer são eliminadas pelo sistema imunológico, em um primeiro momento, graças a certas proteínas, em especial a conexina 43. Mas que, após se proliferarem, passam a se tornar invisíveis às células de defesa. Com a injeção de salmonela, os cientistas conseguiram que a conexina 43 se tornasse visível novamente, e, portanto, suscetível à identificação e destruição por parte dos anticorpos.
De acordo com Clarice Yamanouchi, oncologista do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), esse tipo de método, em que organismos vivos são usados por suas propriedades em reação às células não é novo. Conhecido como vetor, tem sido usado na medicina com vírus e bactérias, explica a médica. Daniel Herchenhorn, chefe da oncologia clínica do Instituto Nacional do Câncer (Inca), complementa que a salmonela se mostrou, em estudos anteriores, muito eficiente na penetração de tumores. “Outro conceito interessante é tentar identificar o tumor por parte do sistema imunológico. Os trabalhos feitos nessa área foram em cima do melanoma porque é uma doença com uma propriedade imunológica bem reconhecida”, acrescenta Herchenhorn.
Entretanto, o estudo ainda está em sua fase inicial, o que não permite uma conclusão concreta sobre o processo se utilizado em seres humanos. “Os estudos clínicos são realizados primeiro em ratos, ou outros pequenos animais, e depois disso em seres humanos. Isto se deve ao fato de existirem diferenças nos sistemas imunológicos dos animais. São pesquisas que envolvem riscos, portanto, devem estar teoricamente muito bem embasados e com sujeitos de pesquisa bem esclarecidos, visto que vão trabalhar com organismos vivos, as salmonelas”, esclarece Clarice.
“O humano nunca responde igual ao roedor. Existem inúmeros estudos que não deram certo em humanos. Primeiro porque os roedores são preparados para isso, para o tumor. Segundo porque há variação na tolerabilidade da dose, por isso os primeiros estudos em humanos são estudos de intolerabilidade, para averiguar os efeitos colaterais e administrar as doses corretas”, complementa Herchenhorn.
A oncolista do IOP acredita que, se confirmada a possibilidade de realizar esse processo em humanos, a medicina passará a entender melhor o funcionamento do sistema imunológico. “Muitas doenças que têm origem no sistema imune podem ser tratadas. O maior desafio é reconhecer a individualidade, já que as pessoas têm modos diferentes do mesmo sistema agir”, afirma.
