A depranocitose, também conhecida como anemia falciforme, é uma doença hereditária que causa uma má formação nas hemácias, células do sangue responsáveis principalmente por levar oxigênio ao organismo. Clarisse Lobo, hematologista pela Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), explica que a alteração se deve a um tipo anormal de hemoglobina (proteína natural do sistema sanguíneo), denominada hemoglobina S (HbS), que modifica a forma das hemácias, “deixando-as com formato de foice — daí o nome ‘falciforme’ — ao invés da forma habitual que é um disco bicôncavo”. Esse formato da célula dificulta a circulação e pode provocar a obstrução vascular.
A médica afirma que a doença se manifesta a partir dos seis meses de idade e os principais sintomas são crises de dor muscular que podem acometer qualquer parte do corpo, como braços, pernas, abdômen e tórax, infecções como pneumonia, icterícia (pele e mucosas amareladas) e acúmulo de sangue no braço, o chamado sequestro esplênico. Além disso, conta Clarisse, a anemia crônica é outra característica da doença e que o diagnóstico é feito por meio do teste do pezinho.
A hematologista conta que a mutação genética tem origem na África equatorial, por isso, é natural que a prevalência da doença seja entre os afrodescendentes. “Devido à miscigenação da população brasileira, a cor de pele não deve nortear a suspeita da doença, pois é possível encontrar no nosso país pessoas com a pele branca cuja origem genética é africana”, ressalta. Ainda de acordo com ela, a doença é recessiva, o que quer dizer que um homem pode carregar o traço da doença, assintomático, e gerar descendentes anêmicos caso a mãe da criança também tenha o traço. Portanto, a probabilidade de um casal assintomático gerar um filho com depranocitose é de 25%. Sobre a possível prevalência do traço da anemia falciforme ao longo do tempo, Clarisse aposta na resistência do organismo portador da característica a doenças como a malária, em sua forma grave.
Clarisse informa que a prevalência da doença no Brasil depende muito da composição étnica de cada região. “O gene está presente na Bahia em um para cada 600 nascimentos, no Rio de Janeiro em um para cada 1200 e no Rio Grande do Sul em um para cada 6000 nascidos”, diz, e completa: “De acordo com a Agência Nacional da Saúde, ao todo cerca de três mil crianças nascem por ano no Brasil com a doença e 180 mil com traço, ou seja, portadoras de um gene mutado”.
