De acordo com uma pesquisa divulgada no mês de setembro, para alguns pacientes de câncer de próstata, incluindo homens mais idosos e homens com tumores pequenos e de baixo risco, o tratamento tradicional pode ser adiado por muitos anos, sem consequências adversas. A pesquisa foi realizada por médicos da Escola de Medicina de Harvard (EUA) e publicada no Journal of Clinical Oncology.
Para o oncologista Ricardo Caponero, membro do conselho científico da Associação Brasileira do Câncer, essa pesquisa é muito importante e mostra os mesmos resultados de dois outros grandes estudos publicados este ano no New England Journal of Medicine. “Todos esses estudos mostram que nossa atenção em fazer rastreamento populacional por PSA (antígeno prostático específico) está focada num ponto inadequado. O diagnóstico mais precoce do câncer de próstata levou a mais diagnósticos e a mais tratamentos, provocando mais sequelas, mas sem reduzir a mortalidade global nos homens.”
Os pesquisadores analisaram os dados de 51.529 homens, que foram acompanhados desde 1986. Nesse grupo, 3.331 homens foram diagnosticados como portadores do câncer de próstata entre 1986 e 2007. Entre eles, 342 optaram por retardar o início do tratamento por um ano ou mais. De 10 a 15 anos depois, metade desses homens continuava sem ter passado por nenhum tratamento contra o câncer de próstata e sem apresentar qualquer consequência disso.
A análise mostrou que 2% dos pacientes que retardaram o início do tratamento morreram da doença, comparado com 1% dos homens que iniciaram o tratamento assim que receberam o diagnóstico.
De acordo com o dr. Caponero, atualmente, nos casos de câncer de próstata já diagnosticados, a avaliação para o tratamento mais adequado deve levar em consideração:
- Idade do paciente;
- Sua condição geral em termos de desempenho físico e doenças concomitantes;
- O grau histológico da agressividade do tumor (Grau de Gleason);
- A velocidade com que o antígeno prostático específico (PSA) se altera;
- E as expectativas e desejos do paciente.
O tratamento do câncer de próstata de alto risco e intermediários, seja com cirurgia, radiação ou terapia hormonal, pode ser decisivo para salvar vidas. No entanto, ainda há dúvidas quanto a se e como devem ser tratados os cânceres de baixo risco. “Se devemos parar de fazer rastreamento, ou se devemos usar outros critérios, ainda é uma questão controversa e sem uma conclusão definida. A recomendação hoje é que se discuta com cada paciente as vantagens e desvantagens dos exames rotineiros em casos assintomáticos” analisa.
O oncologista ressalta a importância de o paciente estar consciente de sua situação e ser colaborativo. “O paciente deve manter o adequado seguimento clínico e laboratorial, além, é claro, de ter condições psíquicas adequadas para conviver com o diagnóstico de um câncer que não está sendo tratado. Isso é particularmente importante em nosso meio” avalia. Ele reforça ainda que adiar o início do tratamento “não é para quem quer, é para quem pode ter essa opção”.
Outra questão que preocupa, de acordo com o dr. Caponero, é “o uso que as fontes pagadoras podem fazer dessa informação, negando a cobertura financeira para o tratamento de pacientes com doença de baixo grau, independentemente da vontade destes”.
Dr. Ricardo Caponero
Formação: Graduação pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1984. Residência Médica em Radioterapia – Hospital das Clínicas da FMUSP. Título de Especialista em Oncologia Clínica pela Associação Médica Brasileira.
Atuação profissional: Membro do conselho científico da Associação Brasileira do Câncer, oncologista clínico da Clínica de Oncologia Médica e dos Hospitais Albert Einstein, Professor Edmundo Vasconcelos, Nove de Julho e Brigadeiro, presidente da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos.
