Ao instilar 01 gota do colírio do modo tradicional, aproveita-se apenas entre 1 e 7 por cento do medicamento, devido ao piscar e ao escoamento das lágrimas. Pensando nisso, uma nova lente de contato, capaz de liberar medicamento nos olhos aos poucos, em quantidade constante e com mais controle, foi desenvolvida pelo Dr. Daniel Kohane e seus colegas do MIT (EUA).
A nova lente de contato é composta por duas camadas que envolvem um polímero absorvente e biodegradável que contém o medicamento. Os materiais usados na fabricação da lente de contato já foram testados e aprovados para uso ocular pelo órgão norte-americano de saúde FDA (Food and Drug Administration).
O uso das lentes de contato vão muito além da estética. “A lente de contato possui mais de vinte indicações, e a maioria são indicações médicas, ou seja, a lente de contato é o insumo do trabalho do médico, para o tratamento de enfermidades” segundo Dr. Brunno Dantas, oftalmologista especialista em lentes de contato, professor do curso Cleber Godinho de Lentes de contato, Membro do corpo docente da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato e Córnea e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e da Orthokeratology Academy Of America.
Em relação ao uso e indicação das lentes o Dr. Dantas faz um alerta: “como não existe receita de lentes de contato é proibido a adaptação de lentes de contato em óticas e farmácias. Infelizmente, alguns estabelecimentos (não todos, existem muitos sérios) visam somente ao lucro, não se importando com os riscos que uma lente de contato mal adaptada e sem supervisão médica pode causar. Um par de óculos errado pode dar no máximo dor de cabeça. Uma lente mal adaptada pode trazer consequências gravíssimas, e levar o paciente à cegueira irreversível”.
O período atualmente aprovado pelas autoridades de saúde para uso contínuo de lentes de contato são 30 dias. Entretanto, durante a pesquisa, foram feitos testes em animais que liberaram o medicamento continuamente por até 100 dias com melhor precisão. Os testes foram realizados com um antibiótico normalmente receitado na forma de colírio ou comprimido, a ciprofloxacina. As quantidades liberadas foram suficientes para matar os patógenos.
“O medicamento não é novo, a novidade é a forma de aplicação do medicamento, ou seja, através da nova lente de contato. Neste caso, a lente é o veículo que transporta a substância medicamentosa. Como outros exemplos de veículo podemos citar: pomadas, cremes, líquido, gel, xarope, emplastros, xampú, etc.”, explica Dr. Brunno Dantas.
Outro fator positivo da nova lente é que ela é feita de polímero biodegradável que se decompõe de forma programada.
Os pesquisadores veem com otimismo aplicações para a nova lente de contato dispensadoras de medicamentos em condições como glaucoma e olhos secos, que exigem a aplicação diária de colírios.
Glaucoma
Doutor Dantas esclarece que existem alguns tipos de glaucoma. O glaucoma crônico e de ângulo aberto, por exemplo. Trata-se de uma doença que acomete o nervo óptico, causando dano ao mesmo, com consequente perda gradativa do campo visual. “Antigamente se achava que só tinha glaucoma quem tinha pressão ocular alta. Hoje se sabe que a hipertensão ocular é apenas um dos fatores que podem comprometer o nervo óptico”, conclui. No entanto, há pessoas que tem a pressão ocular dentro de padrões considerados normais e apresentam acometimento do nervo óptico. Esses casos são conhecidos por “glaucoma de pressão normal“. Uma das formas de se tratar o glaucoma é com colírios medicamentosos especiais.
Curiosidades sobre a lente de contato
As lentes de contato terapêuticas são muito antigas. Xavier Galezowski (1886) desenvolveu algo semelhante a um tablete de gelatina que continha em sua composição cloreto de mercúrio e cocaína (que é um poderoso anestésico). Na época, este tablete era colocado nos olhos dos pacientes após procedimentos cirúrgicos oculares realizados. Este tablete ia se dissolvendo e liberando a medicação gradativamente.
