Um estudo realizado por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria e Comportamento Humano da Universidade da Califórnia – Irvine (UCI), nos Estados Unidos, comprovou que o uso de um medicamento com a função de bloquear a ação da dopamina no organismo é capaz de amenizar os sintomas da gagueira. Dos 130 pacientes gagos que participaram da pesquisa, 60% obtiveram melhora na fala e, consequentemente, em sua capacidade de sustentar conversas claras, dando a eles mais liberdade no trabalho e em contextos sociais.
A dopamina é uma substância que age de forma negativa na atividade dos neurotransmissores, ao bloquear a ação da dopamina no cérebro há uma redução dos níveis de serotonina e da ansiedade, causas comuns da gagueira.
Os pesquisadores, entre eles o psiquiatra Gerald Maguire, usaram dois tipos de medicamentos, ainda em teste, para medir a eficiência do bloqueio da dopamina no cérebro. Um deles tinha apenas efeito placebo, enquanto o outro tinha a função de bloquear a ação da substância.
A fonoaudióloga Anelise Junqueira Bohnen, Diretora Educacional do IBF (Instituto Brasileiro de Fluência), diz que “especialistas não acreditam que a gagueira seja o resultado de nervosismo, ansiedade ou estresse. Ao estudar as imagens do cérebro de pessoas que gaguejam, o Dr. Maguire confirmou que há uma base neurológica para esse distúrbio de fluência. Ele observou níveis maiores de dopamina nas zonas do cérebro responsáveis pela fala. Desde essa descoberta, ele tem pesquisado vários medicamentos para testar suas capacidades de controlar a gagueira”.
Segundo os pesquisadores, laboratórios já manifestaram interesse na fórmula do medicamento que está sendo chamado de Pagoclone. “O estudo sobre a eficácia do Pagoclone está na Fase III b da FDA. São necessárias sete fases no total” explica a diretora do IBF. De acordo com o Dr Maguire, o medicamento poderá entrar no mercado mundial por volta de 2013.
Há alguns anos uma série de estudos para combater a gagueira vem sendo realizada com diversos tipos de medicamentos, entre eles o haloperidol, a risperidona, o aripiprazol e a olanzapina. Mas de acordo com a fonoaudióloga Anelise Junqueira, em todos esses estudos o número de sujeitos pesquisados ainda não é o suficiente para que se adote de forma tranquila qualquer um desses medicamentos, pois não foram desenvolvidos especificamente para este fim e seus efeitos positivos são de curta duração. “Por isso, os resultados obtidos com o Pagoclone até o momento são animadores. Ele está sendo desenvolvido especificamente para a gagueira e seus poucos efeitos colaterais parecem ser muito bem tolerados pelos portadores” analisa.
Por enquanto, Anelize revela que o único tratamento com resultados mais eficazes e duradouros é o realizado por fonoaudiólogos especializados em distúrbios de fluência. “Junto com o tratamento fonoaudiológico, para alguns casos se recomenda o uso do SpeechEasy como um indutor de fluência. O SpeechEasy é um pequeno equipamento usado dentro da orelha que, por sua programação eletrônica, pode elevar os índices de fluência”.
A gagueira deve ser tratada na infância
De acordo com a fonoaudióloga do IBF, as técnicas de neuroimageamento têm permitido um grande aprendizado sobre as diferenças entre cérebros de pessoas fluentes na comparação com cérebros de pessoas que gaguejam. “Porém, as crianças que são tratadas por fonoaudiólogos especializados a partir dos primeiros sinais de gagueira, têm de 98% a 100% de chances de ficar fluente permanentemente. Não se justifica hoje que uma criança que gagueja se torne um adulto que gagueja” alerta.
