Uma das principais causas de morte entre as gestantes no Brasil são as síndromes hipertensivas. A causa da hipertensão durante a gravidez ainda não é conhecida, mas os fatores de risco, segundo Marcelo Vettore, doutor em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) e médico do Hospital dos Servidores do Estado do Rio Janeiro, são:
- Grávidas jovens;
- 1ª gravidez;
- Histórico de hipertensão na família; e
- Gestação em mulheres com mais de 35 anos.
A cobertura de assistência pré-natal no Brasil é considerada pelas autoridades de saúde como satisfatória, mas o incômodo gerado pelo alto índice de mortalidade entre as gestantes em decorrência das síndromes hipertensivas é real e foi tal fato que levou pesquisadores da Escola Nacional da Saúde Pública e do Instituto Fernandes Figueira (ambos da Fundação Oswaldo Cruz) avaliarem os fatores associados ao manejo adequado do pré-natal em hipertensas.
Universo pesquisado
Foram consultadas 1.974 grávidas (9,6% hipertensas) usuárias da rede do Sistema Único de Saúde (SUS) do Rio de Janeiro. A adequação do pré-natal foi de 79%, mas apenas 27% das hipertensas tiveram manejo da pressão arterial considerado ideal.
Vettore, um dos pesquisadores do estudo, explica que o foco da pesquisa foi observar a qualidade do pré-natal e relacioná-lo à hipertensão. Foram avaliados três pontos. “Observamos o profissional em si. Se o seu papel está sendo exercido de maneira satisfatória, se as orientações às gestantes que têm hipertensão estão corretas e claras e, ainda se o manejo da pressão arterial está correto”. Outro item analisado, segundo o pesquisador, foi o serviço da saúde, como, por exemplo, a disponibilidade da medicação. E o terceiro ponto estudado foi o comportamento das gestantes.
No que se refere ao diálogo com as pacientes, embora a maioria dos profissionais de saúde tenha alertado sobre a elevada pressão arterial, quase um terço das gestantes não obteve esclarecimentos sobre os riscos que a doença acarreta na gravidez.
“Este dado revela a dificuldade dos profissionais de saúde em conversar com as pacientes, como, por exemplo, orientações sobre planejamento reprodutivo para mulheres hipertensas”, esclarecem os pesquisadores em artigo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz. Para os estudiosos, esta deveria ser uma preocupação do pré-natalista evitando um nova gravidez de risco.
Dados
Os resultados apontaram que, entre as hipertensas, a proporção de gestantes com mais de 34 anos foi três vezes maior do que as de baixo risco e a frequência de multíparas entre elas foi o dobro da encontrada no segundo grupo. Além disso, 23% das hipertensas foram classificadas como crônicas. Já a frequência de obesidade foi quase quatro vezes maior entre as hipertensas. “A necessidade de repouso foi mencionada por 66% das gestantes hipertensas e os cuidados com a alimentação, por 76%”, afirmam os estudiosos.
Os dados ainda indicaram que, no que se trata de avaliações no pré-natal, a anotação do fundo uterino foi menor nas gestantes hipertensas. Os pesquisadores esperavam que o registro fosse encontrado na quase totalidade dos cartões por ser rotina da consulta pré-natal, ou que houvesse predomínio de registro no grupo das hipertensa, mas foi verificado justamente o contrário.
“Sabe-se que a verificação do fundo uterino após a vigésima semana é um método importante no acompanhamento do crescimento fetal, e que as síndromes hipertensivas são causa importante de restrição de crescimento intrauterino”, explicam os pesquisadores.
Vettore ressalta que a medicação para o tratamento da hipertensão arterial não estava disponível para um terço das pacientes nos serviços de saúde. O pesquisador também comenta que 90% das gestantes seguiram as orientações médicas, estão interessadas em cuidar da saúde. “As gestantes fazem sua parte. O que considero mais interessante do trabalho e inovador no artigo é voltamos as nossas atenções para a questão da qualidade”, afirma.
