Até o final de março de 2008 a Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde registrou 120.570 casos de dengue. Só no estado do Rio de Janeiro foram notificadas 43.523 ocorrências no período, correspondendo a 36% dos casos do País. Segundo o epidemiologista Roberto Medronho, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a situação é alarmante pois as ações para controle da doença são ineficientes. Medronho, um dos principais especialistas em dengue no Brasil, é enfático: se o Aedes aegypti não for combatido, haverá nova epidemia em 2009. Nesta entrevista, o epidemiologista fala ainda sobre a possibilidade de introdução do vírus tipo 4 no País e conta como estão os estudos sobre a vacina.
A epidemia de dengue que acometeu algumas cidades brasileiras neste ano está no fim?
O Brasil não está livre da epidemia, pois não houve controle do Aedes aegypti. A epidemia está apenas migrando. A incidência no estado do Rio de Janeiro está em declínio, mas em capitais como Belém (PA) e Aracaju (SE), por exemplo, o número de casos registrados está crescendo.
Como explicar a epidemia deste verão?
As políticas de combate ao vetor da dengue são ineficientes. O poder público é o principal responsável pela epidemia. A população é a vítima, mas também tem papel importante no controle da doença em colaboração com o governo. A participação da rede privada, que sofreu prejuízos com a epidemia por causa do absenteísmo, também é importante para controle efetivo. É necessário que os órgãos governamentais invistam mais recursos em campanhas educativas, em contratação de agentes de saúde e em ações diretas de prevenção, como visitas a domicílios e pontos estratégicos (cemitérios, borracharias, terrenos baldios, construções, etc).
O que esperar para 2009?
O Rio de Janeiro não terá uma ocorrência na mesma proporção porque a população está imunizada pelos tipos 2 e 3. Mas o vírus acometerá outras cidades onde não houve epidemia. É preciso resolver problema da dengue agora. O ideal é intensificar as campanhas no outono e inverno, para evitar que o mosquito se prolifere rapidamente com a chegada do verão e do período chuvoso.
Como a vacina poderá ajudar a reverter o cenário da dengue no futuro?
A vacina é o principal aliado no combate à dengue. Os estudos até agora apresentam resultados muito promissores. Estamos na fase três do ensaio clinico. Já estamos testando a vacina em seres humanos. Alguns profissionais estimam que ela estará no mercado em cinco anos. Mas a previsão é para até 10 anos. Vamos esperar para que a vacina esteja no mercado o quanto antes. Assim haverá melhor combate à doença, já que está sendo difícil controlar o vetor.
O senhor afirmou em entrevistas recentes que não há como impedir a introdução do tipo 4 no Brasil. Por quê?
O tipo 4 circula em países fronteiriços e que mantêm relações econômicas e turísticas com o País. Não há como impedir a introdução do tipo 4 no Brasil. Esse vírus será introduzido no País, já que as campanhas não conseguem controlar o vetor e diminuir o número de infectados. Existe a possibilidade concreta de ocorrer uma epidemia explosiva do tipo 4, atingindo assim muitas pessoas em um curto período de tempo.
