Passados os transtornos mais visíveis decorrentes das chuvas que afetaram vários estados em todo o Brasil nas últimas semanas, é hora de enfrentar um inimigo nem sempre visível: as doenças causadas pelas enchentes. Sejam por bactérias ou vírus, essas doenças afetam principalmente as pessoas que vivem nas regiões alagadas. E podem causar desde simples náuseas até mesmo a morte.
As principais doenças decorrentes das enchentes são, num grau de maior incidência, a leptospirose e a hepatite A. Ambas são transmitidas através do contato com a água contaminada. E o mais grave: ambas, quando não tratadas adequadamente, podem ser fatais.
Leptospirose
Evitar a leptospirose limpando a boca da latinha de cerveja ou refrigerante pode até ser uma medida preventiva, mas a quantidade de urina de rato, vetor transmissor da doença, que pode estar concentrada ali é infinitamente menor se comparada à quantidade encontrada nas enchentes, devido à força das águas que passaram por todos os locais de lixo e concentraram várias bactérias.
É o que afirma o professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e médico infectologista em pediatria, Marcos Junqueira do Lago: “A doença é contraída quando a pessoa entra em contato com a água contaminada, seja através da boca, de um pequeno ferimento ou até mesmo da cutícula”.
Porém, no caso das tragédias que abalaram o país nos últimos meses, fica difícil determinar uma medida preventiva de evitar o contato com a água quando essa chegava ao teto das casas. “Nesses casos, o melhor a se fazer é assim que se chegar num local seguro, tirar a veste molhada e lavar-se com água e sabão”, aconselha o médico. Outra medida preventiva é estar atento aos sintomas, que levam de 15 a 21 dias para aparecer e são bem característicos por serem súbitos: “Se no período de duas semanas a pessoa sentir dor no corpo e febre súbitos, iniciados como que do nada, é bom procurar um médico”.
Hepatite
A enfermidade com segunda maior incidência em casos de enchentes é a hepatite A que, na opinião do infectologista Lago, tem defasagem em termos de prevenção no Brasil: “A prevenção da doença é feita com vacina, que não é aplicada no sistema público no país. Além disso, estamos defasados em termos de saneamento básico e água potável para a população em geral, o que leva a termos um índice de um caso de hepatite fulminante a cada 20 mil habitantes – o que, numa população como a do Brasil, não é pouco”.
Para o especialista, o ideal é que no caso de enchentes seja feita uma vacinação em massa, mesmo após a população ter tido contato com a água contaminada. Isso porque o período de incubação do vírus é de 30 a 60 dias, o que permite que a vacina atue em boa parte dos casos. Não sendo possível o acesso à vacina, é importante lavar muito bem os alimentos e cuidar com a água que ingere: “Enganam-se as pessoas que acham que somente águas de enchentes estão contaminadas. O vírus é transmitido pelas fezes, então até um rio cristalino pode ter o vírus da hepatite A”.
