O que a princípio parece um simples caso de anemia pode na verdade ser algo muito mais grave. A mielodisplasia é uma doença detectada na análise da medula óssea. De origem morfológica na hematopoiese, o processo de formação e desenvolvimento dos elementos do sangue, pode ser assintomática, percebida somente em alterações no exame de sangue. É o que explica Silvia Magalhães, vice diretora de defesa de classe da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH). Ela diz que a doença pode ser primária — desenvolvida a partir de várias condições benignas, como doenças autoimunes anemias e doenças infecciosas — ou secundária, por meio de exposição a agentes tóxicos e alguns medicamentos. “Pode ainda ser devida à condição neoplásica (câncer) denominada síndrome mielodisplásica (SMD)”, completa e acrescenta que a SMD e a mielodisplasia têm seus termos frequentemente usados indistintamente.
O diagnóstico da SMD é feito por exclusão de outras condições, pois não há uma característica biológica marcante na doença, diz a especialista. “Pacientes que apresentam anemia isolada ou acompanhada de outras citopenias (deficiência em outros componentes do sangue), refratária e inexplicada, devem ter sua medula óssea analisada, através do mielograma e biópsia óssea”. Ela explica ainda que o principal grupo de risco da SMD primária são os pacientes com mais de 60 anos e a frequência da doença aumenta conforme a idade. Já na SMD secundária, o grupo de risco são ex-pacientes que passaram por processos químio ou radioterápicos, sendo mais agressiva nesses casos e acometendo pessoas mais jovens.
Tratamento
Ainda de acordo com ela, uma série de exames laboratoriais pode indicar se a doença tem potencial de evoluir para uma leucemia, e, dependendo do risco, muda-se o tratamento. “Para pacientes considerados de baixo risco, o tratamento tem como objetivo a melhora hematológica. Já para os de alto risco, o tratamento visa modificar a evolução natural da doença. Até os dias atuais, apenas o transplante de medula óssea é a opção terapêutica com potencial curativo”, explica. Mas, ressalta que o transplante é contraindicado para a maioria dos pacientes, devido à idade avançada e outras doenças comuns da velhice. Por isso, a médica aponta outras opções de tratamento da doença de alto risco, como quimioterapia e alguns medicamentos recentemente regulados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para esta patologia.
Sintomas e falta de estimativas precisas
Como a mielodisplasia tem diferentes graus de agressividade, sintomas podem ou não aparecer. Silvia afirma que os sintomas, quando existem, são associados aos da anemia: fraqueza, falta de energia para esforços físicos habituais, dispnéia de esforço, palpitações e até dor precordial nos pacientes portadores de algum grau de insuficiência coronariana. “A neutropenia (deficiência de neutrófilos no sangue) predispõe à infecção, com febre e os sinais de localização do processo infeccioso. A plaquetopenia (deficiência de plaquetas), quando acentuada, resulta em manifestações hemorrágicas de pele e mucosas que, a depender da intensidade, podem ser secundárias a trauma ou espontâneas”. Por essas razões, ela salienta que toda anemia em pessoa idosa deve ser investigada atentamente.
Silvia Magalhães complementa que não há estimativas precisas da incidência da SMD no Brasil. “Em sua publicação ‘Estimativa 2010 – Incidência do Câncer no Brasil’, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), não estima a incidência da SMD, apenas de um grande grupo intitulado conjuntamente leucemias”. Em compensação, ela afirma que está sendo criado um Registro Brasileiro de Síndromes Mielodisplásicas, formado por 12 grandes centros de pesquisa do país. Em um primeiro momento, o grupo está sendo destinado a fazer estudos preliminares sobre a idade média dos brasileiros com a doença, além da coleta e análise de dados de 490 pacientes diagnosticados com mielodisplasia entre 2003 e 2007.
