Desatenção, inquietude, impulsividade. Saber quando essas características da criança são normais e quando estão associadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDA/H) é um desafio para pais, professores e até mesmo para profissionais de saúde.
Diagnóstico do TDA/H
Para a dra. Evelyn Vinocur, psiquiatra especialista em TDA/H, fazer o diagnóstico não é uma tarefa fácil por se tratar de um transtorno abrangente, heterogêneo e que normalmente está associado a uma, duas ou mais comorbidades (presença de outras doenças), o que pode confundir o especialista. “Como se trata de um transtorno do desenvolvimento, saber como é o desenvolvimento normal da criança é fundamental, pois muitas condições infantis podem se parecer com o TDA/H” explica.
Esse transtorno neurobiológico e neurocomportamental afeta, em média, 6% de crianças em idade escolar e continua ao longo da vida do indivíduo. Adultos apresentam uma prevalência de mais ou menos 4% da população. O TDA/H tem uma parcela genética importante, que gira em torno de 90% dos casos. “Por estes motivos o diagnóstico precoce é tão importante” alerta a psiquiatra.
Segundo a dra. Evelyn, investigar toda a história familiar é de suma importância. “Não raro, vemos um dos pais e membros da família sofrendo também dos sintomas. Muitos pais, ao longo das entrevistas diagnósticas, se identificam como tendo o transtorno”.
Como em outros casos, o TDA/H tem influência da genética, mas também do meio ambiente, por isso investigar o histórico escolar ou profissional, bem como a parte afetiva e social também devem fazer parte do diagnóstico. “Averiguar como é a dinâmica familiar da pessoa é uma ferramenta valiosa” acrescenta.
Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem que façam o diagnóstico do TDA/H. “Esses, só serão pedidos, caso a pessoa apresente outras condições que demandem um diagnóstico diferencial específico” esclarece dra. Evelyn.
De acordo com a psiquiatra, atualmente o TDA/H é um transtorno inquestionável, comprovado por inúmeros estudos e pesquisas científicas. “É lamentável que ainda se duvide da existência do TDA/H enquanto um transtorno neurobiológico e que impede o sujeito de aproveitar todo o seu potencial em diversas áreas e que, ainda por cima, carreia vários outros transtornos emocionais e familiares”.
Além dos sintomas chamados cardinais, que são a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade, por estar associado a disfunções em áreas nobres do cérebro (particularmente na região pré-frontal), o TDA/H pode cursar muito frequentemente com o comprometimento das funções executivas (capacidade de realizar metas através de ações voluntárias e autônomas) ou com quadros amotivacionais (caracterizados por apatia e desânimo).
Quando se trata de uma criança, é importante que os familiares mais próximos, bem como babás e professores, se for o caso, respondam um questionário. “Contamos com escalas de sintomas de TDA/H para crianças e adultos, que também são uma de nossas ferramentas diagnósticas”.
Nas crianças, é importante fazer a triagem para outros transtornos do desenvolvimento (como o autismo); transtornos de aprendizagem (dislexia, discalculia, disortografia); distúrbios comportamentais (transtorno opositivo desafiador); outros transtornos psiquiátricos (ansiedade, depressão); problemas psiquiátricos nos pais e outros inúmeros fatores psicossociais que podem cursar com sintomas parecidos aos do TDA/H, inclusive casos em que a criança sofra algum tipo de violência doméstica, bullying, etc.
Já o adulto, explica a dra. Evelyn, normalmente chega ao consultório por conta de transtornos afetivos ou do humor, transtornos ansiosos, uso excessivo de substâncias psicoativas, insucessos laborais, problemas conjugais, queixas de não deslancharem na vida sem motivo aparente, entre outros.
Tratamento do TDA/H
O tratamento mais indicado em todo o mundo é a combinação do tratamento medicamentoso com o tratamento psicoterápico (psicoeducação para o TDA/H, apoio aos familiares, terapia cognitivo comportamental).
Em crianças abaixo de seis anos, opta-se pelo tratamento psicoeducativo e ou psicoterápico e familiar, além da interação com a escola. “É fundamental essa rede entre o médico, a família, e a escola” avalia a psiquiatra.
Nos adolescentes e adultos, onde a presença de outras doenças e sequelas emocionais são mais frequentes, é preciso tratar as comorbidades primeiro, ou seja, “se o adolescente ou o adulto chegar com um quadro ansioso, temos que tratar primeiro a ansiedade” explica dra. Evelyn. Tratar todos os sintomas é importante para equilibrar o paciente. “Só depois do paciente equilibrado, se persistirem os sintomas do TDA/H, aí sim, entramos com o medicamento metilfenidato”.
O metilfenidato regula a disfunção cerebral, aumentando os níveis de dopamina e noradrenalina no cérebro. Age em áreas responsáveis pelo controle inibitório (motor) e por isso, deixa a pessoa menos impulsiva e mais dona do seu controle, fazendo com que ela fique mais calma e menos agitada e menos impulsiva. Age também melhorando a desatenção e a hiperatividade. Melhora também as funções executivas.
Esta medicação, da classe dos psicoestimulantes, é considerada padrão-ouro para o tratamento do TDA/H de acordo com a psiquiatra. Foi criado em 1955 e vem sendo usado com sucesso, desde então. É um medicamento altamente eficaz, com um poder de eficácia em torno de 70-80%. É aprovado pelo FDA e pela ANVISA como medicação de primeira escolha para o tratamento do TDA/H. É usado em praticamente todo o mundo, independente da cultura.
Mais informações: http://www.tdahemfoco.com.br/
